A ausência de uma respiração normal pelo nariz pode acarretar uma série de distúrbios no desenvolvimento físico e psicológico.

 

    O nariz é o órgão pelo qual se inicia a respiração, processo vital para os seres vivos. 

    É através do ato de respirar que as células se suprem de oxigênio, gás que promove a combustão da glicose ingerida na alimentação. A "queima" da glicose produz a energia que o organismo necessita para crescer, se manter e se desenvolver. 

    Sem energia não há vida. 

    A respiração normal é composta de 2 etapas: 

             - inspiração: o ar entra no organismo pelo nariz e caminha sucessivamente pela faringe, laringe, traquéia e brônquios até os alvéolos pulmonares.

             - expiração: o ar que vem dos pulmões sai pelo nariz, já pobre em oxigênio e rico em gás carbônico.

    Quando o nariz é, total ou parcialmente, substituído pela boca na atividade respiratória, o resultado é uma doença denominada Síndrome da Respiração Bucal ou Síndrome da Insuficiência Respiratória Nasal, que pode ser grave e deixar seqüelas para o resto da vida do paciente.

    A bem da verdade pode se afirmar que respiração bucal exclusiva é incomum. A maioria dos pacientes apresenta padrão respiratório misto, ou seja, tem respiração predominante pela boca.

    O conhecimento das inúmeras particularidades, dentre as muitas  alterações possíveis de se encontrar, é fundamental para que se possa devolver ao respirador bucal uma qualidade de vida satisfatória, o mais precocemente possível.

    Procurar a etiologia desta síndrome, assim denominada  porque apresenta múltiplas causas, e propor tratamento, reabilitação e prevenção é tarefa multidisciplinar, que interessa aos seguintes campos de atuação:

        Medicina:

            pediatria, otorrinolaringologia, pneumologia, neurologia, gastroenterologia e cirurgia plástica e reparadora

        Odontologia

            ortodontia, ortopedia funcional dos maxilares e terapia dos distúrbios da ATM (Articulação Têmporo-Mandibular)

        Fonoaudiologia

            motricidade oral e audiologia

        Fisioterapia

        Psicologia

        Pedagogia

    

   Vias Aéreas Superiores

    Denominam-se Vias Aéreas Superiores à porção do organismo que vai do nariz à laringe, conforme diagrama abaixo. 

    O nariz, ponto inicial desta via, tem várias funções. Além de filtração e esterilização do ar enviado aos pulmões, ele promove seu aquecimento e umidificação, além de ser totalmente responsável pelo olfato e parcialmente pelo paladar.

    Existe ainda um reflexo, desencadeado pela passagem do ar pelo nariz, que determina a expansão da caixa torácica, permitindo preenchimento completo dos pulmões pelo ar inspirado. 

    Respirando pela boca o tórax não se expande completamente, falta ar para ocupar todo o espaço pulmonar e diminui a quantidade de oxigênio fornecida ao organismo.

 

   Vias Aéreas Inferiores

    Denominam-se Vias Aéreas Inferiores à porção do organismo que vai da laringe até os pulmões. 

    Na porção terminal do pulmão, no alvéolo pulmonar, é que ocorre a troca gasosa, ou seja, a passagem do oxigênio do ar inspirado para a corrente sanguínea e do gás carbônico desta para o ar a ser expirado.

 

    Causas de Obstrução Nasal

1 - Congênitas 

        a - Atresia de Coanas ou Imperfuração Coanal

            Coanas são as aberturas posteriores das cavidades nasais, na transição entre o nariz e a faringe, em ambas as narinas. 

            Se houver problemas na formação do feto essas estruturas podem permanecer obstruídas ao nascimento, impedindo a passagem de ar pelo nariz. 

            Devido à imaturidade neurológica do recém-nascido, esta situação é incompatível com a vida se ambas as coanas estiverem impermeáveis. Respirar pelo nariz é reflexo nato; a criança somente aprenderá a respirar pela boca em fases mais tardias de sua vida.

            A solução para o problema é cirúrgica.

2- Adquiridas

            a - Rinites

                Inflamações da mucosa nasal, que se edemaciam, incham, impedindo ou dificultando a passagem de ar pelo nariz. A mais comum é a rinite alérgica.

            b - Hipertrofia de Amígdalas e Adenóides

                Principalmente em crianças, aumento de amígdalas e adenóides são freqüentes causas de obstrução nasal.

            c - Desvio de Septo

                Comum, o desvio de septo leva a variados graus de obstrução nasal, principalmente em adultos.

            d - Polipose Nasal

                Também mais comum em adultos, porém não muito frequente, a polipose nasal pode causar vários graus  de obstrução nasal.

    As patologias descritas acima são apenas as mais encontradas dentre as que causam obstrução nasal. 

    Sempre que se notar dificuldades na passagem de ar pelo nariz, com predomínio da respiração pela boca, o médico, principalmente o otorrinolaringologista, deve ser consultado. Uma avaliação clínica completa, auxiliada por uma vasta gama de exames laboratoriais disponíveis, provavelmente descobrirá a origem do problema para resolvê-lo.

    Existem também razões não nasais de respiração bucal: distúrbios ortodônticos causados por uso de chupetas, deficiência no aleitamento materno, língua de tamanho aumentado (como acontece nos portadores de Síndrome de Down), distúrbios neurológicos, etc. 

    Dentre todos os motivos não nasais, o mais comum é a respiração bucal habitual. Estes casos ocorrem depois que o problema do nariz já foi solucionado, porém a boca continua a ser via respiratória.

     Tome-se o exemplo de uma criança cuja rinite alérgica foi adequadamente tratada, ou uma de criança operada de amígdalas e adenóides que mantém o hábito adquirido de respirar pela boca.

 

    Histórico

  Uma pergunta tem despertado muito interesse nos últimos 100 anos:  

Que efeitos a respiração oral pode ter no desenvolvimento? 

    Em 1869 o médico Wilhelm Mayer afirmou que pacientes com respiração nasal reduzida sofriam de pouca audição e saúde geral deficiente.

    Em 1872 o cirurgião-dentista Tomes reportou que crianças respiradoras orais apresentavam arcada dentária estreita e palato alto em forma de "V" resultantes do desequilíbrio entre a posição da língua e dos músculos do queixo.

    Em 1918 o otorrinolaringologista Nordlund formulou, apoiado em trabalhos de Körner (1891) e Brentzen (1903), o que denominou de Teoria da Compressão ou da Inatividade, considerada válida ainda hoje, onde faz a afirmação que nos respiradores bucais a inatividade do palato, que deveria crescer para baixo e para frente, promove uma diminuição no desenvolvimento da cavidade nasal e dos seios maxilares.

 

    Distúrbios de Desenvolvimento Físico

    O desenvolvimento da face é o mais afetado, mas não o único, pela respiração bucal.

     A passagem de ar pelas cavidades nasais é fundamental, notadamente na expiração, para a aeração das cavidades paranasais, principalmente os seios maxilares que formam os malares ou bochechas. No respirador bucal essa região se desenvolve menos, ficando "afundada", comprometendo esteticamente a face, dando-lhe uma aparência de tristeza ou seriedade exagerada e tornando o nariz relativamente maior.

    O maior estímulo para o crescimento dos ossos é o trabalho dos músculos sobre eles. A função da musculatura orofacial tem sido, ao longo do tempo, considerada como fator de relevo no crescimento e na forma do esqueleto craniofacial. 

    A boca aberta torna hipotônicos, ou frouxos, os músculos faciais, atrapalhando as funções de sucção, mastigação, deglutição, fonação, expressão facial e mímica.

    Com relação à mandíbula, a incapacidade que a criança tem em manter a boca fechada impede que os músculos exerçam as pressões necessárias sobre ela, tornando-a pouco desenvolvida pela maior abertura no ângulo formado entre sua porção vertical e a horizontal. 

    A somatória desses problemas resulta numa face que se torna continuamente mais comprida, num processo denominado crescimento vertical da face

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    Com a boca aberta a língua vai para frente, se anterioriza; seus músculos tornam-se flácidos, hipotônicos, resultando na denominada deglutição atípica, impedindo o adequado crescimento do céu da boca. O palato permanece alto, fundo, denominado palato ogival, e com desvio anterior ou protrusão da arcada dentária superior. 

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    O palato divide a face em dois andares: a cavidade nasal no andar superior e cavidade bucal no andar inferior. 

    Palato fundo significa assoalho nasal acima de sua posição natural, dificultando o crescimento do septo nasal, que se entorta porque precisa caber num espaço menor e se desviando daquela que seria sua posição original. O desvio de septo acaba dificultando mais ainda a respiração pelo nariz.

    Também são mais comuns neste grupo de pacientes os problemas pulmonares, uma vez que sem a participação do nariz, o entra "in natura" nos pulmões: poluído, contaminado, frio e seco.

    Muitos estudos ainda relacionam a respiração bucal com a postura da cabeça, do pescoço e de todo o corpo.

    Em situações de dificuldade respiratória, o organismo automaticamente procura uma posição corporal mais confortável, que facilite o ato de respirar. A posição da cabeça em rotação para cima, ou hiperestendida, amplia a passagem do ar pela faringe. 

    A respiração bucal acaba assim, por ações compensatórias musculares e esqueléticas, modificando toda a postura corporal. Numa tentativa de se adaptar, aparecem vícios posturais e distúrbios de equilíbrio de todo o corpo: tórax, abdome, ombros, coluna, pelve, pernas e pés.

    O tórax especificamente acaba se deformando com o tempo, tanto pelo esforço muscular contínuo na inspiração, quanto pela menor expansibilidade proporcionada pela menor quantidade de ar inspirado pela boca.

    Crianças com respiração nasal melhoram sua postura com o crescimento, enquanto que crianças com respiração bucal mantêm um padrão corporal desorganizado, semelhante ao de crianças mais novas.

    Com relação ao trato digestivo, o respirador bucal "engole" ar, que acaba parando no estômago, aumentando as possibilidades de ocorrerem os problemas: 

        a - sensação de estômago cheio diminui o apetite. Alimentando-se menos e com menor concentração de oxigênio nos tecidos cresce menos do que deveria, podendo desenvolver baixa estatura. 

        b - menor tonicidade dos músculos faciais pode comprometer a capacidade mastigatória, contribuindo para  mau desenvolvimento geral.

        c - diminuição do olfato e do paladar quando o nariz entope, diminuindo o apetite da criança.

         d - tendência em apresentar refluxo gastroesofágico. O aumento de pressão no estômago pode alargar a "válvula" que existe na porção distal do esôfago, facilitando o retorno do conteúdo estomacal.

 

    Distúrbios de Desenvolvimento Psicológico

    Após diagnosticada a respiração bucal, é indispensável que se façam investigações sobre o desenvolvimento emocional e escolar das crianças e se avalie as relações familiares e laborativas dos adultos. 

    Duas condições geralmente presentes nos respiradores bucais podem interferir no desenvolvimento psicológico, no processo de aprendizagem e nas relações com o ambiente familiar e de trabalho.

    Em primeiro lugar estão as alterações do sono. O respirador bucal não dorme bem, tem sono leve, entrecortado e conseqüentemente agitado. Freqüentemente se associam roncos e apnéia do sono

    Estas características do sono comprometem o estado de vigília. O paciente passa a conviver com sonolência diurna que provoca, nas crianças, diminuição da capacidade de concentração e de aprendizagem, com agitação psicomotora. 

    Nos adultos os problemas do sono podem provocar cansaço, indisposição física e diminuição da produtividade no trabalho. Nestas situações se recomenda cuidado no manejo de máquinas e na direção de veículos automotores.

    Em segundo lugar está a diminuição crônica de oxigenação tecidual, que agrava todas as situações citadas acima, podendo levar ainda a comprometimento da memória e do humor. 

    Associadas, todas essas alterações podem interferir no comportamento do respirador bucal e contribuir para a diminuição de sua auto-estima, tornando-o arredio, desconfiado e solitário. 

    Alem disso, respirar pela boca pode causar problemas de fala devido as alterações funcionais dos grupos musculares responsáveis por essas funções.

    A má respiração ainda pode provocar alterações nas tubas auditivas desses pacientes, levando ao surgimento de otites com diminuição da audição, atrapalhando a aquisição e o desenvolvimento da linguagem, dificultando o crescimento intelectual.

    Por fim, uma musculatura pouco desenvolvida não suporta tensão maior que suas possibilidades de trabalho, resultando em dor muscular. 

    Quando a tensão é aplicada nos músculos hipotônicos do segmento cefálico (crânio e face) a dor muscular resultante recebe o nome de cefaléia; e dor de cabeça é uma queixa comum entre os respiradores bucais.

 

    Tratamento e Reabilitação

    "Todos os tecidos tem a hora certa, geneticamente determinada, para acelerar ou refrear seu crescimento, que deve ser harmônico e equilibrado. Se houver qualquer risco de rompimento nesta harmonia e equilíbrio deve-se interferir o mais precocemente possível, permitindo que aconteça o que foi planejado naturalmente". (Enlow, adaptado)

    Assim, primordialmente se deve procurar restabelecer a capacidade respiratória nasal, fator fundamental de oxigenação e equilíbrio muscular. 

    Interferir o mais precocemente possível neste processo é a melhor maneira de tratar esta síndrome, pois minimiza as conseqüências. Quanto mais tarde, maiores as possibilidades de serem irreversíveis as alterações do desenvolvimento.

    Nenhum tratamento, seja odontológico, fonoaudiológico, fisioterápico, psicológico ou pedagógico será satisfatório se a obstrução nasal permanecer. A manutenção do agente causador impossibilita o trabalho ósseo e muscular de reabilitação.

    Uma vez resolvida a obstrução nasal e tendo o paciente a maturidade necessária para enfrentar voluntariamente novas empreitadas, isto ocorre por volta dos 4 a 5 anos de idade, ele deve iniciar o trabalho de correção da arcada dentária e das disfunções musculares e psicológicas resultantes de seu infortúnio.

    Relatos recentes indicam que leva em média 1 ano para que se normalizem todos os aspectos relativos ao desenvolvimento, desde que se tenham feito as intervenções necessárias para, no tempo certo, se recuperar a respiração nasal .